segunda-feira, 16 de março de 2015

A Adaga






Quando olhamos para as coisas, quando tocamos nelas é que começam a viver como nós; muito mais importante do que nós, porque continuam.
 O cinzeiro recebe a cinza e fica cinzeiro; cinzeiro sem cinza não tem sentido nenhum.
 Os objetos só tem sentido, quando têm sentido. Fora disso...Eles precisam ser olhados, manuseados, como nós. Se ninguém me ama eu viro uma coisa ainda mais triste do que um cinzeiro sem cinza... por que ando, falo, indo e vindo como uma sombra, vazio, vazio...É o peso de papel sem papel, o cinzeiro sem cinza...Fico aquela adaga ali fora do peito. Para que serve uma adaga fora do peito?

 Uma lua de prata tão aguda...Fui eu quem descobriu essa adaga.



Fonte: Lygia Fagundes Telles in: Antes do Baile Verde – Os Objetos

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